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Por que crer em Deus – A voz de um muçulmano

Por F. Kamal

 

Excerto do livro É fácil compreender o Islã

1º Motivo

Por que existimos? O argumento da evolução aleatória não pode satisfazer o indivíduo que raciocina. Se analisarmos a probabilidade de nosso mundo organizado se formando por puro acaso, as probabilidades serão simplesmente infinitesimamente baixas. Há tantas variáveis que devem coincidir – algumas com grau baixíssimo de tolerância a “erros”. Além disso, as próprias leis da estatística funcionam de forma a tornar a presunção do mero acaso menos plausível. Por exemplo, a probabilidade de dois lançamentos de uma moeda darem coroa é de ½ x ½ = ¼, de três lançamentos, ½ x ½ x ½ = 1/8, e de quatro lançamentos, ½ x ½ x ½ x ½ = 1/16, e assim por diante. Observe a rapidez com que a probabilidade diminui ao se aumentar o número de eventos. Ainda assim, para que nós existamos, dependemos da confluência ideal de tantos e tantos eventos. Por exemplo, a distância entre a Terra e o sol é, em média, de 150 milhões de quilômetros. Esta é a distância exata para se manter a vida na Terra. Se a Terra ficasse um pouco mais próxima do sol, nenhuma forma de vida teria vingado com o calor excessivo; um pouco mais distante e o frio extremo impediria a vida igualmente. Apesar de a rotação da Terra nos permitir dias de 24 horas, nada impediria, no caso de uma situação diversa e uma rotação mais lenta da Terra, que cada noite se estendesse por vários e vários meses. Esse efeito, tão somente, poderia erradicar a maior parte, senão toda a vida do planeta. Também não há motivo para que a translação da Terra em torno do sol dure 365,2422 dias.1 Se em vez disto tivéssemos um inverno de 43 anos, por exemplo, a vida na Terra seria muito difícil de se estabelecer. Se nossa atmosfera fosse composta de hidrogênio, hélio, metano e amônia (como no caso da atmosfera de Júpiter, por exemplo), sem o oxigênio necessário, a vida na Terra não existiria. Se não houvesse água, com suas diferentes propriedades, como os estados líquido, sólido e gasoso, como poderia o ciclo e o fluxo da água reabastecer e reciclar importantes ciclos ecológicos e nutricionais, mantendo ativa a rede da vida? Sem a atmosfera protetora da Terra, a vida estaria vulnerável a meteoros, variações bruscas de temperatura, raios UV/cósmicos – todos, a seu modo, ameaças à vida. E citamos apenas algumas das variáveis ambientais. Se fôssemos considerar, por exemplo, a existência de algo tão extraordinário e complexo como um animal, as probabilidades seriam novamente ínfimas.

Para sustentar estes argumentos, consideremos o ser humano. Para descrever a extraordinária estrutura representada por um ser humano, vamos decompor um homem estruturalmente em funções/partes modulares. Mesmo assim, um módulo simples como o do movimento mostra-se extremamente complexo. Laboratórios de informática e robótica nas universidades mais modernas, com alguns dos maiores gênios do mundo, utilizando diferentes algoritmos, robôs e inteligência artificial, têm trabalhado por anos a fio, para desenvolver esta e outras funções biológicas simples. (Mas a aranha se movimenta com tremenda facilidade.) Qual é a probabilidade de um estudante de doutorado em um laboratório de robótica simplesmente reunir peças aleatoriamente em combinações arbitrárias para construir um robô que funcione? E que tal se esse estudante utilizasse um gerador aleatório de letras para gerar um código para um programa de inteligência artificial que funcione? (E estamos falando aqui de probabilidades bem abaixo de 1%). E mencionamos apenas o movimento (p. ex. caminhar, correr, escalar, pular, etc.). Que tal acrescentarmos a fala, a audição, etc.?

Os cientistas trabalharam por muitos anos até para aperfeiçoar um “nariz artificial.” Isto contrasta com o elegante poder e a sofisticada precisão de um perdigueiro ou de uma vespa parasítica. E o que dizer dos outros sentidos?

As probabilidades despencam rapidamente. Sequer discutimos o desenvolvimento do coração, dos rins ou do cérebro. Se verificarmos os processos biológicos no nível molecular da bioquímica, teremos um número gigantesco de processos munidos de ferramentas de altíssima precisão, atuando em sincronia e sequenciamento extraordinários. Realçamos um número bastante limitado de variáveis para expor os fundamentos do argumento, e ainda assim as probabilidades se reduziram drasticamente.

A esta altura, deve estar evidente para o leitor que há milhões e milhões de fatores que esta linha de raciocínio poderia destacar, cada qual reduzindo ainda mais as probabilidades de criar vida. Apesar de a ocorrência desses eventos puramente ao acaso ser possível, de forma alguma ela é provável. Portanto, aderir à noção de que um evento de probabilidade infinitesimamente baixa possa ocorrer por acaso é bastante inviável. Se uma pessoa se sente à vontade com probabilidades como estas, tenho certeza de que os donos de casas de apostas vão brigar uns com os outros para tê-la como cliente. (Agora eu percebo: “Você quer dizer que não está disposto a pôr a mão na massa e vai ficar só na teoria?” “Vou te contar uma coisa: aposto um trilhão contra um…”). Contudo, nunca deixou de me espantar que pessoas que não apostariam mil dólares em probabilidades insanas (perdão, realmente não há outra palavra), fazem isto com Deus, sem pensar duas vezes.2

1º exemplo: supondo-se que os cientistas descobrissem uma nave espacial incrivelmente avançada e vazia, durante uma sondagem em um planeta ou uma galáxia, quantos cientistas explicariam sua existência como uma jogada de dados aleatória no universo? Esta seria uma explicação científica idônea e digna de crédito? O que aconteceria se prédios e cidades abandonadas fossem descobertos em seguida? Suposições sobre um criador inteligente dessas estruturas seriam sumariamente descartadas pela comunidade científica?

Contudo, vemos à nossa volta sinais incongruentes de objetos e processos com organização extremamente evoluída. Quem é o Criador? É possível algo ser gerado do nada (não há explicação)?

2º Motivo

Apesar de a ciência oferecer muito para o homem e seu estudo ser definitivamente necessário, seu valor deve ser mantido em perspectiva. A ciência não pode se tornar um deus. Embora a ciência seja extremamente útil quando corretamente aplicada, se utilizada isoladamente ou elevada ao status de divindade, ela poderá também ser muito insatisfatória para a mente verdadeiramente exploratória. A ciência é utilizada para responder o que chamamos de perguntas do tipo “Como?”, mas não às perguntas do tipo “Quem” ou “Por quê?” Apesar de ninguém contestar o valor de se responder às perguntas do tipo “Como?”, elevar a ciência ao nível de um deus e recusar-se a responder o “Por que? já basta para causar diversos problemas. Uma certa limitação intelectual e uma miopia exacerbada podem assim resultar em pessoas que consideram a ciência como sua deusa, relegando o “Por que?, na melhor das hipóteses, à categoria de perguntas que não valem a pena serem feitas. Porém, se a mente for de fato sedenta de conhecimentos, ela deverá se perguntar se esse tipo de evasão nada genial sugere um uso seletivo do intelecto.

A ciência se supera ao responder “Como?”, porém, não é sempre eficiente ao responder “Por que?” Por exemplo: a ciência da mecânica e da física explica como se desenvolveu a mecânica clássica (com as fórmulas F=ma, d=vt, por exemplo), que é muito útil para determinar a trajetória de um míssil, entre outras coisas. Mas “Por que?” essas “leis” se sustentam? Outro exemplo, o Big Bang, com uma massa inicial e sob as condições iniciais, pode ser uma boa explicação para determinados dados (p. ex. dados cósmicos), respondendo a uma boa pergunta do tipo “Como?”, porém, abandonando completamente a pergunta “Por que” existia a massa/energia/condição inicial?

Se você ler um livro de engenharia de voo, verá que a força de elevação que atua sob as asas de um avião se deve ao princípio de Bernoulli. A curvatura do aerofólio no momento da decolagem faz com que o ar acima da asa se mova mais rapidamente do que o fluxo de ar abaixo da asa. Isto causa um desequilíbrio de pressão que faz com que o avião decole. Apesar de esta ser uma ótima pergunta do tipo “Como?”, assim como a resposta, ela não explica “Por que” o princípio de Bernoulli existe, para começo de conversa. Por que um navio de aço flutua? A resposta da ciência é que o volume do navio é composto principalmente de ar (não de aço, ou seja, o interior do navio). Como a densidade do ar é menor do que a da água, o ar sobe, pois a matéria de densidade inferior flutua sobre a matéria de densidade superior. O empuxo sob o navio é determinado, conforme o princípio de Arquimedes, pelo peso do volume de água deslocado. Isto não responde à pergunta “Por que?”, e sim à pergunta “Como?”. A pergunta “Por que?é: Por que o princípio de Arquimedes é válido? Ou, neste caso específico: por que as diferentes leis de termodinâmica, gravidade e aerodinâmica se aplicam? Observe que, em última instância, os fenômenos observados são reduzidos a modelos e o funcionamento desses modelos com base em axiomas e leis, mas nenhuma explicação é oferecida quanto ao porquê de essas “leis”, princípios, equações, axiomas, ou como queira chamá-los, tão fundamentais existirem.

Poderíamos argumentar que os cientistas, com o passar do tempo, tentam responder à pergunta “Por que?” Afinal, os modelos evoluem em resposta a novas informações. As equações clássicas de Newton sobre mecânica podem evoluir e ser reformuladas com suas contrapartidas relativistas, a fim se compatibilizarem com as teorias de Einstein, por exemplo. Novas teorias podem ser verificadas com novas informações. As comparações empíricas entre as intensidades dos múons do solo e da atmosfera superior sugerem um aparente aumento na meia-vida das partículas (dilatação relativa do tempo), conforme previsto pela Teoria Especial da Relatividade de Einstein, no que diz respeito às partículas que se deslocam em velocidades próximas à velocidade da luz. A luz do conceito de Newton sobre a gravidade pode ser ofuscada pelas novas noções de gravitação e curvatura do espaço-tempo no mundo da astronomia.

Essas novas formulações, contudo, produzem suas próprias perguntas “Por que?3 Portanto, sob determinado ponto de vista, esses avanços estão, na verdade, respondendo à pergunta “Como?” e não a determinada classe de perguntas “Por que?”. De certa forma, esses avanços estão gerando respostas mais sofisticadas para a pergunta “Como?4

Conforme a sofisticação dos modelos, eles poderão evoluir e contar com elementos recursivos e/ou tornar-se eles próprios, recursivamente, parte dos modelos. À medida que as cadeias de modelo se expandem, elas podem responder melhor à pergunta “Como?”. Porém, algumas partes (como certos axiomas e premissas) escapam à capacidade do modelo de explicar. Apesar de ser possível construir cadeias com esses modelos, essas cadeias não abrangem todos os fatores e sempre haverá alguma parte, axioma ou premissa que permanecerá inexplicada pela cadeia de modelos vigente.

Ou, talvez, aqueles que têm uma mente mais literária possam preferir a seguinte citação de Hamlet, na peça de Shakespeare:

Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que possa imaginar tua vã filosofia.5

Seja como for, essa abordagem, que analisa cuidadosamente as perguntas “Como?e ignora as classes de perguntas “Quem?” e “Por que?”, é tão parcial intelectualmente que se torna óbvia, até mesmo para os muito jovens ou menos educados.

Mudando de esfera:

Redigir este texto despertou-me uma lembrança de minha infância. Por se tratar de algo que aconteceu há muito tempo, os detalhes podem ser um pouco nebulosos, mas da essência me lembro com muita clareza.

Quando eu era criança, um tio meu compartilhou comigo uma lição valiosa que ele havia aprendido. Ele me contou que certa vez estava muito irritado com outro parente nosso. Essa outra pessoa havia exercido, por um breve período, certa influência econômica em uma nação pobre em desenvolvimento. Meu tio sentia que as políticas sancionadas por esse parente influente prejudicavam as pessoas e, indignado, relatou sua opinião a um parente.

Em resposta, o tal parente citou para ele uma parábola, mais ou menos assim:

Você vê alguém sentado sobre um muro alto. Logo abaixo, outro homem se debate descontroladamente, afogando-se em um poço de águas profundas. Você sem dúvida alguma espera que o homem no muro pule e salve o que está se afogando, mas para sua repulsa, esse homem salta para o outro lado e desaparece de sua vista, em segurança.

Que homem terrível! – você diria.

Porém, o que você não sabia é que do outro lado do muro alto, havia outro poço com três mulheres e seus bebês se afogando, e que o homem saltara para o outro lado para salvá-las.

Estou narrando este fato apenas porque me alerta quanto à maneira como às vezes percebemos a verdade tão superficialmente.

A verdade pode ser muito difícil de se perceber, às vezes. Focar a luz da experimentação em um ângulo diferente, mesmo que apenas ligeiramente, pode nos revelar uma faceta completamente diferente da verdade. A verdade, porém, pode manter-se oculta, pois pode ser difícil extrair e analisar corretamente 100% dos dados. A ciência é uma ferramenta maravilhosa e deve ser estudada com rigor e responsabilidade. Mas não pode ser sempre o instrumento perfeito para se chegar à verdade, uma vez que pode sofrer guinadas de 180 graus à medida que as teorias são revistas e novas informações são reveladas. Da mesma forma, não há garantia total de que todas as informações disponíveis possam ser observadas e processadas por nós.6

(Talvez, como se vivêssemos em um mundo bidimensional, em que jamais “enxergaríamos” prismas tridimensionais se não passassem por nosso plano de existência ou se não interagíssemos com eles.)

3º Motivo

Não levando em conta a natureza das informações externas para nós, ainda prevalece a antiga questão da fragilidade nuclear de nosso vínculo com as informações.

A famosa máxima chinesa clássica da borboleta e o homem ilustra este aspecto perfeitamente:

Uma pessoa dormiu e sonhou que era uma borboleta. Ao acordar, ela não sabia se era uma pessoa que havia sonhado com uma borboleta ou uma borboleta sonhado que era uma pessoa. Em outras palavras, nossas conclusões podem ser apenas tão fortes quanto as informações julgamos serem verdadeiras.

Os muçulmanos talvez dissessem que precisamos de um vínculo que o Divino (tipicamente por intermédio de um profeta), pois Deus é a única verdade absoluta, e por meio de Deus podemos começar a conhecer, em última instância, a verdade essencial (dos profetas).

Sim, chego então à conclusão de que precisar de um Deus não significa então que Deus exista, e sim que, se Deus existe, claramente precisamos d’Ele e esta seria uma das confirmações da verdade, que Deus existe. (Sim, entendo também que esta questão é bastante sutil.)

4º Motivo

Como explicar o instinto? A ciência se satisfaz em relegar temporariamente aquilo que não é capaz de responder, em “caixas pretas”, que serão consideradas futuramente (quiçá quando os instrumentos se tornarem mais eficientes, etc.). Mesmo se tais mecanismos forem desvendados no futuro, essas descobertas sem dúvidas estimulam o fascínio pela atividade interna do universo. Na natureza, há alguns casos memoráveis envolvendo o instinto. Talvez não seja aconselhável desprezá-los, desvalorizá-los ou desconsiderá-los. Não seria melhor perguntar? Como o pássaro sabe construir um ninho ou voar pela primeira vez; como um mamífero sabe dar à luz sem nunca tê-lo feito antes, e os filhotes sabem, imediatamente após o nascimento, como se alimentar; e como o castor sabe construir uma represa (côncava)? Quem é “o programador final desses animais?” E por que existe esse código? (Esta é uma pergunta do tipo “Por que?”, ao contrário da pergunta “Como?”; por exemplo, como funciona o programa?).

5º Motivo

A beleza do universo. O universo não é somente funcional; ele é lindo! É difícil admirar uma linda cachoeira, contemplar uma noite estrelada ou caminhar por uma floresta e não acreditar que Deus existe. Será que essa beleza extraordinária simplesmente apareceu aleatoriamente? Que artista poderia simplesmente se afastar de seu pincel e de seu cavalete, voltar mais tarde e ver sua tela preenchida com as mais lindas e exuberantes imagens por mero acaso? Não apenas existe a beleza nos mundos físicos, mas também nos mundos virtuais da matemática e da física. Que sábio cientista não se encanta com a extraordinária elegância das tantas leis que regem fenômenos visivelmente complexos e independentes? Será que não existe alguma Inteligência criativa invisível aí? Os muçulmanos não se contêm e admiram cada descoberta da ciência, pois a grandiosidade da criação de Deus se revela diante de seus olhos. “Como é grande a sutileza, a elegância, a beleza e a arte de nosso Senhor!” Os muçulmanos se encantam.

As descobertas de hoje revelam mundos anteriormente desconhecidos, como mundos revelados pelo microscópio eletrônico e as estranhas e maravilhosas criaturas descobertas nas pesquisas mais recentes nas profundezas do mar. As extraordinárias, delicadas e elegantes conexões na rede ecológica parecem ser o testemunho de uma Criatividade, uma Arte e uma Inteligência extraordinárias e não um lançamento aleatório de dados,7 por trás de nosso universo.

6º Motivo

Suponhamos por um momento que você não acredite em Deus, no paraíso, no inferno e no Dia do Julgamento. Considere o seguinte: e se Deus não existisse e você morresse sem acreditar n’Ele? Você estaria saltitando de felicidade ao morrer? Dificilmente! Considere agora que Deus existe e você morra sem acreditar n’Ele? Você estaria saltitando de felicidade ao morrer? Dificilmente!

7º Motivo

Como observação pessoal, sinto que posso ver alguns sinais de verdade no extraordinário impacto do Islã nas pessoas, famílias e comunidades, bem como no atual curso da história. Apesar de não realçá-los, não seria correto simplesmente descartá-los sem qualquer tipo de ponderação. Compreendo que esta seja uma área em que a opinião de algumas pessoas pode divergir da minha. Cito-os, não para me estender, mas apenas para repassar indícios deles. Por exemplo, não há muitas forças na história que tenham sido capazes de transformar alguns de seus maiores inimigos em grandes defensores. Umar, por exemplo, foi um perseguidor implacável do islamismo e quase matou o Profeta Muhammad, mas tornou-se um dos mais renomados muçulmanos e o 2o Califa (líder) do islamismo.

A transformação de Malcolm X também é uma história interessante. Ele era uma pessoa tomada pela ira e pelo ressentimento contra a raça branca, mas depois de se converter ao islamismo, foi capaz de enxergar além da raça e reavaliar seu relacionamento com os brancos.

Malcolm X não está só. Outras pessoas se confrontaram com ambientes hostis, drogas, gangues, prostituição, crimes e coisa pior, mas se superaram e saíram desses antros. O islamismo transformou as vidas de inúmeras pessoas perdidas, que passaram a se empenhar em fazer a coisa certa. O Islã é capaz de ter êxito onde muitas vezes os serviços sociais, a engenharia social e os programas de reabilitação fracassam. O islamismo claramente toca algo mais profundo na alma do ser humano.

É ilustrativo também ler as histórias dos companheiros do Profeta e saber como ele transformou uma nação que enterrava vivas suas filhas ainda bebês, vivia em estado de ignorância e imoralidade, adorava ídolos, cometia todo tipo de atrocidades e atos torpes, rompia laços familiares, tratava mal seus visitantes e onde os fortes exploravam os mais fracos, em uma nação que, pouco depois do advento do Profeta Muhammad, tornou-se um sinalizador da justiça, da verdade e da compaixão. O impacto de Muhammad sobre todo o curso da história foi tão dramático e tão inédito que, mesmo um não muçulmano, ao redigir uma obra popular que classificava as 100 pessoas mais influentes da história da humanidade, decidiu inseri-lo no primeiro lugar da lista.

Não apenas um sistema de vida inteiramente novo foi apresentado a um povo maltrapilho, retrógrado e ignóbil, como também o transformou rapidamente, em poucos anos, para que tomasse e dominasse as superpotências da época: os poderosos impérios Persa e Bizantino.

8º Motivo

Como se explica o “fenômeno de Muhammad?” Como poderia alguém iletrado subitamente ser associado ao Alcorão? O Alcorão possui ritmos acústicos profundos, méritos literários e sabedoria. É, sem dúvidas, o pináculo de todo o idioma árabe. O Profeta Muhammad, contudo, era analfabeto. Além disto, que motivos teria Muhammad para aceitar sua missão? Seus primeiros anos foram marcados por perseguições e infortúnios. Alguns de seus seguidores foram brutalmente torturados e mortos, alguns forçados a migrar para outras terras, seu clã foi boicotado e ele próprio foi apedrejado pelas crianças na vila de Ta’if. Com a miséria sem fim e o extermínio quase certo à frente, que motivação teria ele para prosseguir? Teria sido por riqueza, status ou prestígio? Qual teria sido sua motivação? Porém, mesmo quando os Quaraish (sua tribo) ofereceram a ele muita riqueza e um reinado se abandonasse sua missão, ele se recusou a fazê-lo. Em determinada ocasião, ele disse a um tio: “Por Deus, se puserem o sol sobre minha mão direita e a lua sobre a esquerda com a condição de que eu abandone minha jornada, até que Deus me tenha feito vitorioso ou até que eu pereça em minha missão, não a abandonarei jamais.” Não apenas existe dificuldade em se estabelecer um motivo, mas devemos nos lembrar de que o Profeta se estabeleceu (muito antes de ser profeta) como uma pessoa conhecida pelos negócios justos, por sua honestidade, sinceridade e credibilidade. Seu caráter era impecável. De fato, os Quraish haviam conferido a ele o título de Al-‘Ameen (digno de confiança).

9º Motivo

Apesar de haver milagres associados ao Profeta Muhammad, os muçulmanos preferem dar ênfase ao milagre do Alcorão. (Observação: os muçulmanos acreditam que o Alcorão seja a palavra exata de Deus, conforme revelada pelo Arcanjo Gabriel ao Profeta Muhammad.) Eles preferem dar ênfase ao Alcorão porque, em determinado sentido, trata-se de um “milagre vivo”; pode ser lido, recitado, analisado e estudado, mesmo nos dias atuais. Trata-se claramente de um milagre acústico, um milagre linguístico e um profundo acervo de sabedoria. O Alcorão lança um desafio esplêndido para que descrentes criem uma obra semelhante – desafio este que em mais de 1400 anos jamais foi respondido.

Há diversos aspectos sobre o Alcorão que indicam sua origem divina. Por exemplo, no Surah “Os Bizantinos,” o Alcorão prevê a derrota dos persas nas mãos dos bizantinos. Entretanto, esses ayat (versículos) foram revelados em uma época em que os bizantinos (Romanos) haviam sofrido diversas perdas e severas derrotas nas mãos dos persas. E foi somente muitos anos depois, em uma reviravolta do destino, que os persas foram de fato derrotados “pelas mãos dos bizantinos.” Existem ayat (versículos) no Alcorão que revelam fatos sobre a embriologia humana que apenas recentemente foram descobertos pela ciência moderna e que não poderiam ser conhecidos há 1400 anos. Esse ponto se torna mais pungente quando se tem a curiosidade de examinar as ferramentas e teorias existentes naquela época. Boa parte do que consideramos irrefutável hoje em dia estava muito longe da forma como as pessoas pensavam tempos atrás.

Nos anos recentes, alguns muçulmanos reexaminaram textos religiosos à luz da ciência moderna. O interessante é que algumas leituras linguísticas e novas interpretações parecem ser compatíveis com as descobertas científicas recentes. O que torna o fato mais interessante é que o Alcorão revelou tudo isto há 1400 anos, muito antes de tais descobertas. Será mera coincidência? Há alguma validade nessas interpretações? Se houver, como poderiam essas informações ser conhecidas? Ou será que tem gente se aprofundando demais nessas interpretações? Não importa como nos sintamos a respeito de algumas dessas interpretações, elas podem, muitas vezes, ser uma leitura muito interessante.

Por exemplo, os versículos do Alcorão aludem ao fato de a terra ser redonda? Alguns versículos do Alcorão parecem indicar isto.

Também interessantes são as recentes análises de determinadas palavras e versículos do Alcorão, que indicam o fato de que a lua não é a fonte de sua própria luz e sim de uma luz refletida, algo apenas recentemente descoberto pela ciência. Há diversos aspectos do Alcorão que desafiam a noção de que ele tenha sido escrito por homens, dos quais apenas alguns foram citados aqui. (Consulte outro capítulo deste livro para ver mais detalhes).89

10º Motivo

Os muçulmanos podem argumentar que aqueles que não creem em Deus talvez precisem acreditar que suas lástimas, sua esperança e sua morte sejam determinadas por lançamentos aleatórios de dados? (E quem estaria rolando os dados, afinal? Talvez uma pergunta que valha a pena fazer.) Afinal, quem quer ser uma marionete em uma existência sem significado e sem propósito? Os muçulmanos poderiam perguntar se não existe Justiça, Verdade, Compaixão e Amor verdadeiros? Se não houvesse Deus, por que desejaríamos viver? Por um carro esportivo vermelho e luxuoso? Por uma casa de praia para passar o verão?

Os muçulmanos são muito temerosos de qualquer indício de riquezas mundanas ou fama que possam elevá-los a um status de divindade pessoal (de rápida decadência). Há um provérbio do Profeta Muhammad que ecoa a fragilidade dessa busca infinita, incapaz de matar a sede do homem e de preencher o vazio de sua alma.

“Anas relatou as palavras do Mensageiro de Deus, dizendo: Se o filho de Adão possuir dois vales de riquezas, ele ambicionará o terceiro. E o estômago do filho de Adão não se enche senão com poeira...” (Sahih Muçulmano 5.2282)

Final do capítulo

Nota do autor: Uma vez que este capítulo trata da existência de Deus, algumas pessoas podem interpretar mal minhas referências científicas. Eu não acredito que a existência de Deus (ou Sua inexistência) possa ser “comprovada” (em sentido absoluto) pela ciência. (Um muçulmano poderia argumentar que esta ambiguidade aparente, ou manto temporário, reflete a ideia central do islã de livre arbítrio. O livre arbítrio e a lenta expressão do coração de uma pessoa são como ela escreve sua vida.)

Deus, de diversas maneiras, pertence ao plano “invisível”, portanto, há um elemento de fé na crença. Não se trata, contudo, de uma fé cega e insensível. Os sinais de Deus se manifestam por toda a existência, para que o indivíduo pensante os contemple. De fato, é provável que cada um encontre fortes indícios que indiquem a existência de Deus.10

Deve-se também notar que a descrença em Deus também exige um “ato de fé”, de certa forma (a analogia é imprecisa), ou um axioma ou uma premissa, visto que a inexistência de Deus não pode ser cientificamente comprovada e costuma haver um pressuposto implícito de que tudo pode ser humanamente observado – sem que haja também a comprovação de tal afirmação. Esses indivíduos poderão alegar que, se algo não é observável, é uma coisa inexistente, para todos os fins práticos, em seu mundo.

Entretanto, à medida que a ciência avança, os instrumentos se tornam mais sensíveis, as teorias evoluem e experimentos indiretos são revelados, aumenta a probabilidade de as futuras gerações reconhecerem a existência de diversas coisas e conceitos que as gerações atuais não podem conceber. Os cientistas modernos da atualidade reconhecem a existência de coisas que os “cientistas” mais avançados de dois mil anos atrás teriam afirmado categoricamente que não existem ou, na melhor das hipóteses, taxariam de especulações fantasiosas de mentes altamente imaginativas. Ainda assim, o simples fato de alguém em algum momento dizer que algo não existe não impede sua existência, mesmo que não seja de alguma maneira diretamente observável pelos olhos ou sentidos da pessoa que nega sua existência na época em questão.11/12.

(Este é um trecho do livro "É fácil compreender o Islã") 

1 Tecnicamente, este parâmetro pode ter um intervalo. Por exemplo, durante o “Período Devioniano” (há 400 milhões de anos) um ano tinha 400 dias (e um dia tinha 22 horas). Isto pode ser determinado pela verificação de fósseis. Os números atuais se devem a fatores como as forças das marés e a deriva continental.

2 Mesmo se for descoberta vida em outro planeta, isto não afetaria o argumento. Muito pelo contrário. Esse tipo de constatação deve dar ensejo a novas questões. Por que tantas condições e permutações sem fundamento em relação à existência? Na essência, a vida gerada do nada é um evento altamente improvável. Mais formas de vida provenientes do nada são ainda mais improváveis. (Para desvencilhar e ser um pouco mais abrangente em relação a determinado ponto, os muçulmanos de fato acreditam em uma criação distinta (além dos seres humanos), chamada Jinn. Há diversas definições para a palavra “Jinn.” Uma delas refere-se à criação a partir do fogo, que assim como os seres humanos, têm a faculdade de optar entre o bem e o mal.) Deus também é conhecido como “Senhor de todos os mundos” no Alcorão. Em outra nota, para aqueles que estão em dúvidas: Nos anos 1960, foi realizado um trabalho que buscava estimar a probabilidade de mundos semelhantes à Terra, utilizando um recurso conhecido como Equação de Drake. Diversos problemas foram apontados nessa abordagem em particular, inclusive o fato de que diversos fatores foram ignorados (por exemplo, placas tectônicas (utilizadas para metais e ciclos de calor), poços gravidade de proteção de Júpiter contra asteroides para os planetas internos, etc.). Existe também a ideia de que os números atribuídos aos diferentes fatores podem estar incorretos. Além disto, algumas pessoas sugeriram um “Paradoxo de Fermi”: se há tantas possibilidades, por que ainda não fomos visitados por civilizações mais avançadas? Outra alternativa: Algumas pessoas mencionaram simulações por computador, envolvendo algoritmos de evolução genética. Entretanto, os algoritmos genéticos convencionais apresentam certos problemas, como a tendência de se aproximar das assíntotas e moverem-se com frequência a picos locais (não globais). Deve-se também ter o cuidado de não dar aos dados atributos divinos, como inteligência, etc., nem tirar conclusões precipitadas com o fato.

3 Um possível exemplo para aqueles que estão familiarizados com a astronomia: Como = Dados planetários de Tycho Brae. Por que = As ideias de Kepler sobre a fórmula da elipse “explicando” os percursos dos dados. Primeira iteração/recorrência: As elipses de Kepler agora se tornam o ‘como’ e a teoria da gravitação de Newton agora nos dá o ‘por que’. Segunda iteração/recorrência: A gravidade estudada por Newton, por sua vez, se torna o ‘como’, assim como Einstein agora “explica” a gravidade como uma “curvatura no tempo-espaço” (p. ex. um novo ‘por que’). Também modelos mais novos têm diferentes premissas (por exemplo, Newton trabalha bem no “mundo corriqueiro”. Einstein é necessário para lidarmos com diferentes ambientes, p. ex. objetos de grande porte (como buracos negros, primórdios do universo, etc.)

4 O GPS é um exemplo de como os avanços da física (relatividade) foram necessários para corrigir algumas premissas “intuitivas”, porém equivocadas da física clássica (em relação ao tempo, por exemplo), que resultaram com “respostas otimizadas do tipo ‘como’”, que permitiram aos receptores de GPS funcionar corretamente.

O GPS localiza posições utilizando (quatro) satélites de referência orbitando o planeta. Esse método utiliza uma variação de distância = velocidade (p. ex., a velocidade da luz) x tempo (p. ex., tempo de trânsito de um sinal) para “triangular” a posição. A parte mais importante é a variação de tempo–requer um ajuste para calcular a expansão temporal devida à velocidade relativa, e a distorção do tempo devido à massa, conforme as teorias de relatividade espacial e geral de Einstein. (Observação: A teoria geral da relatividade de Einstein também reclassificou a gravidade como uma “curva de espaço-tempo”).

Eis aqui outro exemplo de novos dados desafiando ideias e premissas pré-existentes e exigindo respostas otimizadas do tipo “como”, por exemplo, com modelos. Modelos de estrutura atômica: Do modelo do pudim de passas de J.J. Thomson ao modelo planetário de Niels Bohr ao modelo da nuvem quântica (probabilidades).

(Não tem interesse em física? E que tal um exemplo de química, então? Considere as leis dos gases ideais sugeridas inicialmente por Mendeleev, posteriormente refinadas pela equação de Van Der Waals para melhor tratamento de baixas temperaturas e altas pressões, como um exemplo de pergunta do tipo “como” otimizada.)

5 Aqueles que se inclinam mais aos conceitos matemáticos poderão julgar o teorema da incompletude de Godel mais interessante. Ele explora os limites de coisas como a matemática. Outras ideias relacionadas: Alan Turing (funções não computáveis), trabalho de Gregory Chaitin (p. ex. Ômega). Menos interessante, mas não menos intrigante, é a tese de Church-Turing, tanto em sua forma mais forte quanto na mais fraca (menos interessante por se tratar de mera conjectura.)

6 Está interessado em astronomia? Você sabia que o “universo observável” está encolhendo? (Entre os motivos, podemos citar: a expansão do universo em constante aceleração – pesquise sobre a energia escura–e a velocidade da luz). Podemos chegar a uma época em que tudo o que será “visível” no céu será a Via Láctea. Se todos os dados anteriores vierem a ser de alguma forma apagados em uma data futura, muitas verdades poderão escapar à observação (e ainda assim serem verdades).

7 Parece que a questão do “acaso” pode ser bem mais complicada do que se imagina tipicamente. Por exemplo, o laboratório de pesquisas sobre anomalias PEAR (Princeton Engineering Anomalies Research) da Universidade de Princeton produziu alguns resultados intrigantes sobre a interação entre Geradores de Eventos Aleatórios (GEAs) e a “consciência” humana. Aparentemente, um desejo ou uma intenção de “distorcer” eventos ao acaso pode “alterar” as probabilidades de uma maneira tênue, porém significativa (www.princeton.edu/~pear/).

8 Deve-se observar que mesmo havendo “itens de interesse ou debate” para os cientistas, registrados no Alcorão há mais de 1400 anos, essa realidade foi notada pelos muçulmanos apenas recentemente – não havia ação (ou compreensão) sobre eles há 1400 anos, por parte dos muçulmanos.

9 Apesar de a história europeia ter sido marcada por um relacionamento tumultuado entre a ciência e a igreja, o islamismo jamais passou por algo semelhante. Em vez disto, o Islã e as ciências prosperaram de mãos dadas, visto que o islamismo encorajava fortemente a busca do aprendizado e do conhecimento. Este fato contrasta bruscamente com os conflitos entre a ciência e a igreja, a exemplo do famoso julgamento de Galileu.

10 Sem dúvidas, parece haver tons de uma certa preguiça e de falta de humildade na abordagem de alguns agnósticos, o que é um tanto incômodo. Duas qualidades sutilmente subversivas, ainda que corrosivamente destrutivas em última instância, do maravilhosamente magnífico empreendimento da exploração aberta.

11 Alguns trabalhos interessantes foram desenvolvidos pelas pesquisas de anomalias do PEAR (Princeton Engineering Anomalies Research), da Universidade de Princeton, que estudaram as interações entre Geradores de Eventos Aleatórios (GEAs) e a “consciência” humana, bem como a “visualização remota”, que sugere que podem haver interações pequenas, porém significativas além do nível atual de compreensão humana. Podem haver mais dimensões de interação do que atualmente conseguimos compreender.

12 Seria interessante ver como algumas complexidades intrigantes da mecânica quântica (a física das coisas mínimas) serão desvendadas no futuro. Atualmente, a mecânica quântica e a física quântica sugerem conceitos desafiadores – de que o ato de observar poderá mudar a observação, de que o efeito poderá preceder a causa (por exemplo, empiricamente, há experimentos intrigantes com dupla fenda neste tema), entre outros, que poderiam proporcionar algumas respostas interessantes.

(Este é um trecho do livro "É fácil compreender o Islã")

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